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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Breves Apontamentos para a História da Rendaria

Com visos de verdade, historiadores registaram e poetas cantaram, desde a mais alta antiguidade, a famosa lenda, que, há muito, corre mundo, da teia tecida de dia e logo desfeita de noite, pela fiel e formosa esposa Penélope para, em doce e ledo engano, manter a distância toda uma corte de apaixonados, em porfiada disputa para a sucessão ao facundo e astuto Ulisses no tálamo conjugal.
Já a Bíblia nos fala de um «véu de cor de jacinto, de púrpura e de escarlate tinta duas vezes e de linho fino e retorcido, com lavores de bordados, e tecido com formosa variedade», cuja urdidura fora ordenada pelo Senhor a Moisés e destinado ao Tabernáculo.
Que o uso de malhas de fio era velha costumeira egípcia e que os patrícios romanos adornavam suas togas com finos e transparentes fios habilmente entretecidos parecem verdades históricas averiguadas.
São escassas as notícias da rendaria, anteriores ao alvorecer da Idade Média.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O Artesanato Nacional e as Rendas de Setúbal

O artesanato das rendas portuguesas começou, há muito, a morrer e a soterrar-se nas ruínas do tempo. O pouco que dele continua a sobreviver caminha para lá, a passos largos, embora resistindo heroicamente aos baldões da sorte e aos duros empuxões da adversidade.
Em breve, as nossas rendas, a mais mimosa e fina manifestação artística da mulher da beira-mar e adorno, o mais belo e delicado das mulheres de Portugal, não passarão de uma doce e suave recordação a diluir-se e a desaparecer nas brumas da imensidade do passado.
Viana do Castelo, se não assistiu já à extinção total de tão popular arte, assiste, presentemente, à sua franca decadência. As feitoreiras do seu bairro piscatório da Ribeira seguiram o caminho das suas colegas setubalenses dos bairros de Troino e das Fontainhas.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Rendas Que Não Rendem

Generosa e sofredora, a rendilheira de Setúbal, por pendor natural do sexo mais afectuosa, mais económica, mais paciente e mais disciplinada do que o homem, sabia arrancar do coração amantíssimo nos mais amargos momentos das suas desditas os mais doces sorrisos de alento, de mistura com meigas palavras de consolação, sempre que os seus entes queridos pareciam querer soçobrar nas agruras da vida. O seu espírito de economia, aliado ao seu amor ao trabalho, era o escudo contra o qual, em momentos bem dolorosos, se quebravam os mais rudes golpes da adversidade.
E, porque era assim, e porque também era previdente, um dia, abandonou os bilros, os «piques» e os alfinetes; fechou a porta à rendeira intermediária e foi procurar, fora de casa, os réditos compensadores do seu trabalho, que esta lhe não dava, mas que a sua depauperada economia familiar, imperiosamente, lhe exigia.

sábado, 29 de março de 2014

Redes e Rendas

Onde há redes, há rendas — diz o povo.
Ao trabalho pesado e penoso do homem do mar- o pescador— corresponde, em terra, o mais mimoso e fino labor da mulher — a rendilheira.

O mar, caminho da orfandade e da viuvez, da dor e da amargura, caminho da conquista, do heroísmo e da evangelização, o mar inspirador de poetas, o mar que escorre, encapelado e meigo, misterioso e arrebatador nas estrofes de «Os Lusíadas», o mar que forneceu os mais belos e evocadores ornamentos da nossa arquitectura manuelina, o mar, que marca no rendilhado da pedra do Mosteiro dos Jerónimos as glórias nacionais, também é artista, também faz rendas frágeis e vaporosas, de translúcida e ténue espuma, para orlar a terra portuguesa, que beija e afaga com doçura, quando a não vergasta e descarna furiosamente.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Lendas e Rendas

Na imaginação da nossa gente do povo, a história das rendas começa sempre numa história de amor.
Eu conto.
Era uma vez uma linda e esbelta rapariga. Esforçado e galanteador era o moço que dela se enamorara. Pobres, um e outro, muito se amarguravam e consumiam na impossibilidade de, por carência de enxoval, realizarem a aspiração comum: o matrimónio.