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sábado, 21 de junho de 2014

A torre do campanário



A torre do campanário do Convento de Jesus está ao sul, na fachada do mesmo convento, encostada à parede da casa do coro, em cujo ângulo do lado poente está um botaréu. Assenta a torre entre esta parede e a do ante coro, na qual fica encravada, mas sem saliência nem retraimento, e assim as faces das paredes externas estão no mesmo nivelamento.

domingo, 11 de maio de 2014

Sepultura do Convento de Jesus

Artigo de M. M. Portela da revista "O Archeologo Português" publicada pelo Museu Etnográfico Português. Redactor: J. Leite de Vasconcelos. Vol. I. 1895.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Botaréus (do Convento de Jesus)



Bem volta da igreja, colocados de distância em distância, erguem-se os botaréus encostados às paredes externas, característicos da chamada arquitectura gótica, e próximo das mesmas paredes levantam-se os arcobotantes, assim denominados por serem botaréus que também sustentam e fortalecem os muros, mais aos quais lançam arcos, que ficam entre os botaréus. Em geral são colocados da parte interior da clausura.

domingo, 23 de março de 2014

A fachada do pórtico



A fachada do pórtico da Igreja de Jesus está virada para o sul, e quase ao fim da parede lateral da mesma igreja que corre de lesta a oeste. É da mesma arquitectura gótica, perpendicular, ou vertical, a que se chama manuelina, e que foi adoptada na fábrica da capela-mor e corpo da igreja. É de forma côncava, encrava na espessura da parede, e na parte mais saliente e externa, onde tem a sua maior largura, mede 7 metros e 50 cent; daqui, formando por assim dizer o átrio, mede uns 3 metros até ao fundo, onde, ocupando uma largura de 3 metros e 50, está o pórtico de forma dupla, ou de duas entradas, da mesma fábrica e estilo predominante dos tempos de D. João II e D. Manuel.

terça-feira, 4 de março de 2014

Casa Tumular e Sepulturas do Convento de Jesus

Por detrás do altar-mor da Igreja do Convento de Jesus está no pavimento uma pedra quadrada de 55 centímetros de diâmetro. Levantada ela aparece uma estreita escada de sete degraus de alvenaria, por onde apenas cabe uma pessoa. Ao fundo quase da escada está uma pequena porta, de um metro de altura e 50 cent. de largura, deitando para uma casa ou cripta que fica entre a parede junta aos degraus e a outra parede do fundo da igreja, ficando por conseguinte esta casa colocada sob a última parte e fundo da capela-mor, que não ficou acabada segundo o primitivo risco, servindo-lhe de fundo uma tribuna de madeira de talha dourada, que fica sobre o altar-mor. 

A casa tumular tem apenas uma pequena fresta ou lumieira com grade de ferro, virada para o sul, mas está na sua maior parte tapada de pedra e cal, a fim de se evitar que para dentro dela se lancem pedras, lixo, etc. Tem esta casa uns dois metros de altura, e 6 metros e 50 cent. de comprimento de norte a sul, e 3 metros e 90 cent. de largura de nascente a poente. A casa é abóbada, e as faces interiores das suas paredes e da mesma abóbada eram revestidas de azulejos de cor branca e parda. Hoje, porém, apenas se encontram ali alguns fragmentos desses azulejos, mas muito danificados. Na altura de um metro em volta das paredes ainda se vêem algumas palavras em letra gótica, e escritas em latim dos mesmos azulejos e com cor amarela, como por exemplo – Memoria tua Domino nostro, mas não se pode ligar uma oração completa, e menos se encontra um nome próprio por todo esse escaliçado, letras isoladas e mais ou menos apagadas. 

Em frente da porta de entrada, e parede do lado do nascente está um pequeno altar de alvenaria, guarnecido de iguais azulejos já muito deteriorados, e sobre o altar vê-se um largo nicho cavado na mesma parede, guarnecido também dos ditos azulejos. O nicho está guarnecido dos lados, e em cima tem enfeites de pedraria da Arrábida, e de fábrica semelhante à da igreja e pórtico principal. Não contém porém imagem alguma. 

Ao lado direito deste altar (para a parte do norte) está junto à parede um túmulo de pedra da Arrábida, de fábrica lisa, tendo de altura 1 metro e 10 cent., de comprimento 1 metro e 50 cent. e de largura 60 cent. 
Na parede do lado norte, em frente à outra do sul, em que está a fresta ou lumieira, assenta junto a ela um outro túmulo maior, mas da mesma pedra e de igual fábrica, tendo 1 metro e 50cent., de comprimento 2 metros e 50 cent., e de largura 1 metro. Sobre este túmulo vimos uma caveira humana, que parece ter sido ali posta não haverá muito tempo.

Nestes três túmulos não há inscrição alguma.

Ao meio do pavimento da casa está uma campa sepulcral de mármore branco, que mede 2 metros e 60 cent. de comprimento e 1 metro e 3 centímetros de largura. O comprimento corre de norte para sul, para onde estão viradas as seguintes armas:



São as armas do bispo de Ceuta e da Guarda D. Fr. João Manuel, que eram as armas dos Manuéis de Castela e foram concedidas aos descendentes do bispo e de D. Justa Rodrigues Pereira; hoje usam-nas os senhores da Casa de Atalaia.

Abaixo das armas a seguinte inscrição:

AQVI IAZ DOM AM
TONIO MANOEL NE
TO DA FVNDODOR
DESTE MVSTEIRO

(As cifras dos Manuéis, e de Vilhenas, como descendentes do infante D. Manuel, filho de el-rei D. Fernando, o Santo, de Castela, trazem as armas, que o mesmo infante tomou, que foram um escudo quarteado, numa parte um leão, que significa o brazão dos reis de Leão, e noutra um braço com uma asa, e na mão uma espada, que vem a ser a mão de um anjo, aludindo a sua mãe que era descendente de Isacio Ângelo, Imperador de Constantinopla. Notícias de Portugal. T. 1º, p. 224. Manuel Severim de Faria)
Diz Brito Rebelo que por detrás do altar-mor estão dois jazigos singelos, num dos quais descansam os retos da fundadora com os de sua mãe, e em outro os de seu neto D. António Manuel e que estas sepulturas foram profanadas para naturalmente se procurar nelas algum objecto de valor. («Ocidente». Vol. 4.º N.º 104. P 252)

*
SEPULTURAS

Os ossos da mãe de Justa Rodrigues Pereira, na clausura Justa de Jesus que fora fundadora e prioresa do Convento da Ordem Dominicana em Abrantes, foram trasladados daquele convento, a pedido de sua filha, para o de Jesus em Setúbal onde ficaram depositados em sepultura rasa na casa do Capítulo.
Na mesma casa do Capítulo, e juntos àqueles, jazem os restos mortais de Justa Rodrigues Pereira, tendo unicamente sobre a campa humilde e rasa a seguinte inscrição:

AQUI JAZ A FUNDADORA DESTA CASA.

Por fins do século XVIII viera para Setúbal um bispo do Maranhão, que havia sido frade da Província da Arrábida. Em Setúbal fez construir uma casa muito modesta, junto à dos padres confessor e capelão do Convento de Jesus, estando ainda hoje todas essas casas unidas ao pátio da portaria do mesmo convento, do lado poente, e com frente para o sul e Largo de Jesus. O bispo faleceu naquela mesma casa, e foi sepultado na igreja do convento, dentro da teia do cruzeiro, e junto a uma das capelas, a do lado norte.

O chapéu do falecido este por muito tempo pendurado na parede da igreja e sobre a sepultura rasa. Ultimamente lançaram o chapéu para trás do altar-mor, onde ainda o vimos escondido, velho e deteriorado.

*

Diogo de Lucena, filho do Doutor João Rodrigues de Lucena, morador em Setúbal, e de Margarida Inês, viúvo de Catarina Serrão, sem herdeiros forçados, por seus filhos já haverem falecido, como se depreende dos sufrágios que manda se façam por suas almas, dispôs em seu testamento de 15 de Julho de 1609, entre outras coisas, que quando falecesse lhe vestissem o seu hábito branco sobre o de S. Francisco, e lhe calçassem nos pés uma servilhas vermelhas novas com esporas, e lhe cingissem uma espada, pondo-lhe na cabeça um barrete vermelho à lei de cavaleiro, porque era professo no hábito de Sant’Iago, e que se pagasse logo 1$000 réis à fábrica do convento, a que era obrigado pela cama em que morria segundo a regra, para lhe não fazerem custas. Dispôs mais que queria ser enterrado na Igreja do Convento de Jesus de Setúbal, e na mesma cova em que o havia sido seu pai (Arch. Misericórdia de Setúbal. Liv. N.º 17. Testamentos, p. 70)

*

Por todo o pavimento da igreja havia sepulturas rasas. Mas de princípios do século XVIII, em consequência de medidas higiénicas que se tornaram necessárias, por ordem do ordinário, em vista da representação das freiras, a ninguém se permitia ser ali enterrado, salvo o que tivesse sepultura ou carneiro seu. Consta, porém, que apenas houve duas excepções, por tolerância de um capelão. (Brito Rebelo «O Ocidente». Vol. 4 Nº 104, p. 232)

in CARVALHO, Almeida, Acontecimentos, Lendas e Tradições da Região Setubalense. Vol. III - Convento de Jesus. Setúbal, Junta Distrital, 1969

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Objectos do Convento de Jesus

Relação dos objectos do suprimido Convento de Jesus de Setúbal que foram recolhidos no Museu Nacional de Bellas Artes


in Arquivo Nacional Torre do Tombo - Código de Referência -PT/MNAA/AJF/DC-CM-MM/002-0001/000034

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A fachada do pórtico

A fachada do pórtico da Igreja de Jesus está virada para o sul, e quase ao fim da parede lateral da mesma igreja que corre de leste a oeste. É da mesma arquitectura gótica, perpendicular, ou vertical, a que se chama manuelina, e que foi adoptada na fábrica da capela-mor e corpo da igreja. É de forma côncava, encravada na espessura da parede, e na parte mais saliente e externa, onde tem a sua maior largura, mede 7 metros e 50 cent.; daqui, formando  por assim dizer o átrio, mede uns 3 metros até ao fundo, onde, ocupando uma largura de 3 metro e 50, está o pórtico de forma dupla, ou de duas entradas, da mesma fábrica e estilo predominante dos tempos de D. João II e D. Manuel.


Além da maior largura na fachada propriamente dita, há ainda a mais, de cada um dos lados dela e ao fundo dos extremos de dois botaréus laterais, uns 90 cm., de espaço de parede revestida de pedraria lista. Estes dois botaréus de forte espessura, que ladeiam a fachada do pórtico, dando-lhe mais saliência, apresentam a sua superfície revestida de pilaretes, ou colunelos octógonos e bem lavrados, tripartidos, ou divididos em três partes sobrepostas umas às outras, e cada uma com sua base e capitel, e ao meio do fuste um cordão ou anel, que corta os pilaretes do centro, os quais terminam ao cimo com capitéis, que também servem de peanhas, seguindo-se-lhes verticalmente meias rotundas cobertas por baldaquinos.

Da parte interior do átrio, erguem-se lateralmente diversos polistilos, ou pilastras, e colunelas suas peanhas, meias rotundas e baldaquinos. Do cimo dessas colunelas sai erguendo-se a abóbada do átrio, formando um arco de ponto, ornado de diferentes cordões, e tudo fabricado no mesmo estilo.

Ao fundo, como dissemos, está o pórtico duplo, ou de duas entradas para o templo, com umbrais e arcos, sobre cada um dos quais está um baldaquino, ficando entre as duas entradas diferentes pilaretes ou colunelas, semelhantes às já referidas. A colunela do centro, porém, eleva-se quase a tocar no arco da abóbada. É dividida em duas partes; a inferior tem a sua base, e capitel que serviria também para peanha, enquanto que a parte superior é ornada de um capitel, que serve de baldaquim para a parte inferior, e de peanha para o espaço que se lhe eleva, rematando afinal com um outro baldaquim, no cimo da colunela.

A parede superior às duas entradas do pórtico, é faceada de pedraria lisa, formando a modo de frontão, além do qual ainda se elevam botaréus laterais.

in CARVALHO, Almeida, Acontecimentos, Lendas e Tradições de Setúbal, Junta Distrital, 1969

sábado, 4 de junho de 2011

Convento de Jesus: O edifício e a sua frontaria

O edíficio do Convento de Jesus é um dos principais, senão o de maior valia e apreço que a cidade possuí, e o único monumento conventual que, por assim dizer, por aí ainda sobressai entre as ruínas dos outros que caíram derribados pela picareta e pelo camartelo. Não é, nem se compara com as majestosas Sé de Coimbra, igrejas de Alcobaça, Tomar, Batalha, Belém e Mafra, e tantas outras, mas é um monumento venerado, o seu templo revela bem a época em que se ergueu pelas belas obras de arte da nossa arquitectura manuelina.




O estilo da fábrica do seu pórtico e dos frestões da fachada é de um gosto aproximado do de Belém, e coaduna-se bem com o do interior da igreja. Um escritor competente, referindo-se à perfeição a que chegou a arquitectura chamada gótica, ou, segundo outros, perpendicular, e melhor seria se se dissesse vertical, entendia que a sua classificação em grande ainda estava por fazer. Mas se tal classificação geral estivesse feita, podia ser que nesta classe se compreendesse o género ou estilo, cujos caracteres deduzira do monumento de Belém, e de outros edifícios que nomeava, aos quais poderia ainda acrescentar o Convento de Jesus de Setúbal.

Lamentava este mesmo escritor que a ignorância, o mau gosto, e portanto o desprezo pelas belezas da arte fizessem com que a fachada do majestoso templo fosse afrontada de alguma árvores, que não só poderiam danificar o edifício, como também obstar a que do mar se pudesse gozar aquele sumptuoso monumento. Mas acrescentava «que talvez as árvores ali tivessem sido plantadas para ocultarem as destruições e remendos sujos de cal, envergonhados de se acharem tão patentes». Felizmente estes inconvenientes não se observam hoje, quanto às árvores…

Pois cá em Setúbal foi-se mais além; há remendos sujos e asquerosos por entre os destroços do tempo, e talvez mais pela rudeza ou maldade dos homens, e não faltam árvores altas e menos agradáveis ocultando a maior e melhor parte da fachada do templo de Jesus. A civilização é assim que caminha.
O edifício que queremos descrever, ou antes, de que faremos um imperfeito esboço, tem o cunho da arte cristã e as indicações das conveniências religiosas, sem omitir a atenção às influências climatéricas e à natureza dos materiais apropriados à respectiva localidade. Foi destas e doutras regras que, por esses antigos tempos, já de há muito se seguiam na arquitectura, que nascera na arte cristã a união da inspiração católica com o carácter de nacionalidade ou de localidade que se nota nos antigos monumentos góticos.

*

A frontaria do Convento de Jesus, como a dos Jerónimos de Belém, está virada ao sul. O seu pórtico é de pedra mármore avermelhada da Arrábida, e as paredes do corpo da igreja e dos compartimentos do convento são de alvenaria; porém as faces externas dos muros da capela-mor são revestidas de pedra calcária dura, assim como os botaréus e arcobotantes, que de distância em distância cercam por todos os lados o edifício, cujos muros fortalecem. E toda essa pedra mostra-nos ora aquela cor sombria que lhes imprimou o correr de longos tempos, o negro das intempéries dos séculos, ora o tisnado pardo avermelhadas das inclemências dos astros.

O edifício tem a forma de um rectângulo, e a sua frente corre de nascente a poente. Começando-se pelo nascente, pateteia-se-nos a igreja, amparada ou fortalecida com grossos e altos botaréus de pedraria, que acompanham a espaços todas as outras paredes, ornada com dois altos, bem rasgados e trabalhados frestões no estilo arquitectónico manuelino, assim como o belo pórtico de igual fábrica, seguindo-se ainda o resto da parede do templo, logo a do coro, do antecoro e a torre do campanário, e do vão da escada principal do convento, e a do pático da portaria, seguindo-se as casas externas da clausura, que serviam de habitação aos padres e serviçais do convento, e finalizando com o muro da chamada Horta de Fora do convento.

in CARVALHO, Almeida, Acontecimentos, Lendas e Tradições de Setúbal, Junta Distrital, 1969

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A origem da fundação do Mosteiro de Jesus

A origem da fundação do Mosteiro de Jesus, de Setúbal, é quase a mesma da maior parte de todos esses monumentos claustrais, que se ergueram durante tantos séculos, e existiram entre nós espalhados aqui e além, por planícies e alturas, no seio das cidades, vilas e lugares, por entre os vales e no meio das campinas, ou nas faldas, nas encostas, e no cimo das serras.

Em muitos desses monumentos resplandeceu a grandeza e a sumptuosidade mundana, mas, em homenagem à verdade, tem de dizer-se que, na maioria deles, só a pobreza e humildade reinaram, e alguns foram mesmo, positivamente, verdadeiros espelhos de virtude.



Mas, as instituições eram humanas, os tempos e as ideias modificaram-se, cresceram os abusos, adulterando a boa doutrina e destruindo a disciplina primitiva Afinal, desvanecidas as profundas crenças, e sucendendo-lhe o relaxamento, quando as Ordens Religiosas necessitavam antes de uma pronta e energética reforma, sobreveio o tufão tremendo e irreflectido da revolução, que varreu da face da terra mosteiros e conventos, monges e monjas, frades e freiras, envolvendo na sua passagem devastadora bons e maus religiosos, culpados e inocentes.

*

O ínicio da construção deste Mosteiro foi identifco ao de todos os outros. Os reis fizeram largas concessões, despendendo avultultadas somas, saídas dos cofres da Nação; e os grandes senhores e poderosos concorreram, também, com grossas quantias, tiradas de outras muito maiores que recebiam dos pesados e vexatórios impostos que, geralmente, lhes pagavam os pequenos e pobres contribuintes. É certo que gente havia que espontaneamente fazia doações e dava esmolas influenciada pelas arreigadas convicções religiosas, e por vezes obcecada pelo fanatismo, mas afinal quase tudo saía, directa ou indirectamente, da bolsa do povo.

Infelizmente, os sacríficios do povo não paravam por aí. O povo, operário ou artífice, era duramente constrangido a prestar o seu trabalho manual por meio da ADUA, ou outro serviço pessoal. Não vemos nós, por mandado das autoridades e de outros funcionários públicos, de juízes em sua alçada, e até a própria abadessa do mosteiro, apenar pedreiros, cabouqueiros, carpinteiros, carreteiros com as respectivas bestas, barqueiros com os respectivos barcos e tudo o mais que se julgasse necessário à obra que se queria empreender? Não vemos nós o trabalhador, operário ou artista, forçado a trabalhar por um jornal que a Câmara Municipal ou outra autoridade fixava arbitrariamente, e que era ainda menor quando se tratava de estabelecimentos religiosos e de outros de utilidade pública?

E, note-se, que nessas obras eram empregados ranchos de escravos, que seus donos contratavam por baixos preços, pouco lhes importando a miséria desses infelizes, contanto que auferissem o lucro do seu trabalho, que era apenas compensado com o pedaço de pão negro que lhes atiravam, amassado com o suor, as lágrimas, e até o próprio sangue do desgraçado, que gemia sob os ferros da escravidão!

Com a concorrência destas coisas animadas – os escravos – os salários desciam ainda mais e, assim, os trabalhadores, embora se furtassem ao trabalho forçado e não justamente remunerado, tinham afinal de submeter-se à arbitrariedade, para não irem jazer no antro de alguma insalubre e mortífera prisão!

Os senhores ou directores das obras públicas, para que estas se fizessem, forneciam a enxada, o camartelo, a pá, a colher e a trolha, a alavanca, e os outros instrumentos. Mas o povo dizia: "E nós damos os nossos próprios corpos”. Mas dizia por que arbitrariamente o constrangiam a que o dissesse.  


in CARVALHO, Almeida, Acontecimentos, Lendas e Tradições de Setúbal, Junta Distrital, 1969

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Cruzeiro de Jesus

É de mármore vermelho da Arrabida. Tem tres degraus de forma semi-circular. Parece estar soterrado. Mandado construir por D. Jorge, duque de Coimbra, mestre da ordem de Santiago. O local onde está collocado, o largo de Jesus, denominou-se antigamente o Sapal de Troino.


ALBINO, José Maria Rosa, Roteiro da Cidade de Setúbal, 1892

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Convento de Jesus



“Edificada a instancias de Justa Rodrigues Pereira, ama do rei D. Manuel. Lançada a pedra fundamental a 17 d’agosto de 1490, pelo bispo de Ceuta D Justo. O desenho e direcção da construcção pertenceu ao italiano, Botaca, o mesmo que dirigiu a construção do mosteiro de Santa Maria de Belém.

A 22 d’agosto de 1500, el-rei D. João II mandou alargal-a. Alguns quadros foram dadiva de D. Manoel e da rainha D. Leonor, a quem os offertára o imperador Maximilano. No museu das Bellas Artes, às Janelas Verdes, em Lisboa, existem 4 dos quadros que pertenceram a este real mosteiro.

Sahiram d’aqui em 1882, por occasião da exposição da arte ornamental.

O estylo da construção da egreja é manuelino

A escada do altar-mór é de bello mosaico. A talha dourada e magnífica.

No altar-mór existem tres sepulturas, tendo a seguinte inscripção: - «Aqui jaz D. Manuel neto do fundador». – No pavimento existem campas com brasões. O marmore do pórtico d’entrada é da serra da Arrabida. O terramoto de 11 de Novembro de 1858 causou-lhe grandes estragos, soffrendo depois reparos, para os quaes concorreu D. Pedro V. Em 1890, pelo fallecimento da ultima freira, passou o mosteiro a ser propriedade da Misericordia de Setubal, com a condição de alli se estabelecer o hospital”

ALBINO, José Maria Rosa, Roteiro da Cidade de Setúbal, 1892
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Imagem:
FALCÃO,  Isabel (coord.), João Vaz - 1859 - 1934: um pintor do Naturalismo, Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, 2005, p. 238

Um mosteiro manuelino
Data: "1886" (canto inferior esquerdo)
Óleo sobre tela
Assinada: Vaz (canto inferior esquerdo)
Alt.: 665mm; larg.:905mm
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda/IPPAR
inv. 57594