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quarta-feira, 28 de maio de 2014

O Golpe de 28 de Maio - Mais um golpe

Nos anos anteriores à instauração da Ditadura Militar, a cidade de Setúbal encontrava-se mergulhada numa profunda crise económica, social e política.
As características específicas da cidade, com uma mono-indústria sobredimensionada e dependente de mão-de-obra barata e de matéria-prima inconstante e aleatória, convocam o movimento operário para uma ainda maior radicalização, que era já perceptível no elenco das lutas que tinham estalado ao longo de ciclos sucessivos, gorada que tinha sido a esperança que o novo regime suscitara nos tempos prévios à sua implantação.
Deste modo, tal como no resto do país, a sociedade setubalense, num extenso período anterior ao 28 de Maio, encontrava-se submersa por lutas sociais intensas, com um operariado reivindicativo, organizado, experiente e influenciado pelas ideologias revolucionárias. O sectarismo político exacerbado entre as várias facções republicanas contribuía, de forma importante, para a total ausência de perspectivas em que a cidade parecia atolada.

domingo, 1 de dezembro de 2013

4 de Outubro de 1910



Na tarde de 4 de Outubro é organizada uma grande manifestação pelos dirigentes republicanos locais, pelos socialistas revolucionários e pelos anarquistas.

Nessa manifestação a cidade regurgita de força e de determinação. Tem as  ruas percorridas por milhares de pessoas. A manifestação encaminha-se para a câmara municipal, onde funcionava a esquadra de polícia. Aí exige que seja hasteada a bandeira republicana.

Estamos, repete-se, em 4 de Outubro, e a cidade, num pressentimento de ruptura, cumpre antecipadamente um roteiro de revolução. Perante a recusa da polícia em desfraldar a bandeira da República, e após alguns tiros disparados do interior da esquadra, a câmara será incendiada. A monarquia ardia em Setúbal sem garbo e sem glória, acossada por manifestantes que, numa espécie de auto de fé revolucionário, impunham na rua um novo regime. A bandeira monárquica jazia agora imprestável e em seu lugar subia a da república. A troca de poderes tinha acontecido.

A noite setubalense do 4 de Outubro será uma noite justiceira. Após o incêndio do edifício camarário, havia que acertar outras contas.

A cidade republicana e popular, a cidade sindicalista e revolucionária, que calcorreava as ruas e praças setubalenses, não esquecia nem perdoava àqueles que desde sempre tinham sido os aliados incondicionais da monarquia.

Essa incondicionalidade havia-se colado à pele da Igreja Católica. A Igreja significava para estes republicanos aquilo que de pior se continha na monarquia. A Igreja significava exactamente, o obscurantismo, o poder da realeza legitimado pela bênção e pela cruz e pelo conservadorismo.

Os revolucionários do 4 de Outubro conheciam bem as ordens religiosas que existiam em Setúbal, a sua morada, a sua existência física, o que diziam no seus sermões.

A Igreja do Coração de Jesus, ocupada pelos Jesuítas, será alvo do primeiro assalto; de seguida, o convento de Brancanes, habitado por Franciscanos, conhecerá igual destino: ambas as instituições vão ser saqueadas. O Convento de Brancanes acabará também por ser incendiado.

A Igreja nunca perdoará estes actos. A descrição de Luís Silveira, jornalista, feita em tom de reportagem, muitos anos depois, prova que a Igreja Católica e os seus seguidores, sentiram o fogo ateado naqueles incêndios como um golpe que o tempo não sarou.

“No largo fronteiro, uma fogueira; e arremessadas sobre ela, numa fúria de destruição inconcebível, imagens várias que guarneciam os altares da igreja, alimentavam essa fogueira infernal , à volta da qual a turba desconhecida, de pé-descalço, desprezível, ululava em gritos de canibalesca selvajaria!” (Silveira, 1939)
É nossa convicção que estas acções não foram irreflectidas nem obra do acaso. Elas reflectem em grau de radicalização e influência política das correntes sindicalistas revolucionárias e anarquistas, espelhando ainda a ligação destas correntes a sectores do republicanismo setubalense.

No dia 5 de Outubro, irão ocorrer ainda outros assaltos a Brancanes, numa lógica de continuação do saque sobre o que havia sobrado. O Administrador do Concelho, Luciano de Carvalho, logo no dia 6 de Outubro pedirá ao comandante do Regimento de Infantaria protecção para o edifício do Convento.

“Continuando a ser invadido pelos populares o edifício de Brancannes, e sendo impotente a polícia de que actualmente disponho para coibir tal abuso, vimos por isso rogar a VExª se digne providenciar para que uma força de cavalaria para aí siga imediatamente a fim de proibir que o povo ali entre.”

Havia por estes dias como que um vácuo de poder na cidade.

A polícia tinha fugido na noite de 4 de Outubro tendo ficando completamente desarticulada, como o próprio Administrador do Concelho reconhece no ofício enviado ao comandante do quartel.

Por isso mesmo, uma das primeiras medidas, ou mesmo a primeira medida, que terá sido tomada pelo representante do novo governo revolucionário em Setúbal foi a criação de “Comissões Paroquiais” encarregadas da manutenção da “ordem pública”. Vê-se, no entanto, que o Administrador do Concelho não confiava completamente na eficácia destes comités revolucionários. Se neles tivesse confiado, não teria mobilizado de imediato o exército, mesmo sabendo que o comandante do quartel do 11 não teria aderido de imediato à revolução.

De resto, esta mobilização da “força aramada” não se limitou a defender Brancannes. Foi também utilizada para patrulhar as quatro freguesias urbanas onde a possibilidade de existirem conflitos era maior e, de igual modo, para evitar novos assaltos a instituições religiosas, como se percebe por este novo ofício endereçado para o comandante de infantaria no dia 8 de Outubro: “Rogo a V. Exª que uma força de 9 soldados compareça pelas 8 horas da noite no extinto convento de S. Francisco para o guardar”.

Não é necessário concordar com a asserção de Engels de que a “violência é a parteira da história” para reconhecer que Setúbal foi das cidades do país em que o parto republicano foi mais violento.


Em mais nenhuma outra cidade do país temos uma situação semelhante a esta, com destruição pelo fogo dos símbolos do poder político e do poder religioso…

in ALHO, Alberico Afonso Costa, Do ensaio do poder à guerra social permanente e de alta intensidade: Setúbal republicana: a greve geral da indústria conserveira de 1922. Disponível em: http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/4855/1/Do_ensaio_do_poder_a_guerra_social---.pdf. [consultado em: 30 de Novembro de 2013]

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Greve de 1911

Enquadra-se nestas circunstâncias a paralisação dos moços e das operárias conserveiras em Fevereiro e Março de 1911, que suscitou a solidariedade dos sapateiros, pedreiros, corticeiros e carregadores, nomeadamente de outras localidades da Margem Sul e de Lisboa, e que seria uma das mais emblemáticas greves realizadas em Setúbal, ainda que pelos piores motivos, pois o derramamento de sangue a que deu lugar decretou “o divórcio entre o operariado e os republicanos” (Arranja, 2009:9).

A designada “greve de Setúbal”, iniciada no final de Fevereiro pelas mulheres empregadas nas fábricas de conservas, que ganhavam 40 réis por hora durante o dia e 50 por hora durante a noite e pretendiam passar a auferir 50 réis independentemente de se tratar de trabalho diurno ou nocturno, estendeu-se até 13 de Março, envolta em polémica e tendo um desfecho trágico.

Logo nos primeiros dias da paralisação, um incidente ficaria registado: o poeta e republicano Paulino de Oliveira – figura ilustre da cidade que, à semelhança da mulher, a escritora e activista feminista Ana de Castro Osório, publicamente se expressava a favor das classes operárias e da igualdade do género – tentou minorar o impacto da greve que afectava a conserveira propriedade da sua irmã, dirigindo-se à fábrica para tomar o lugar das funcionárias. Estas vaiaram-no e terão, alegadamente, procurado agredir as mulheres que o acompanhavam, ao que Paulino de Oliveira ripostou com chicotadas sobre as grevistas. A contradição entre o pensamento e os actos do poeta foi justificada pelo próprio e pela sua esposa como “uma agressão a mulheres em defesa de outras mulheres”, mas terá lesado a imagem pública do casal.

Mas um episódio bem mais grave estava a dias de ocorrer. A 13 de Março, e uma vez mais pretendendo os industriais de duas conserveiras contornar os efeitos da paralisação, verificaram-se confrontos entre as largas centenas de grevistas que se aglomeravam na Avenida Luísa Todi e agentes da Guarda Republicana que escoltavam os patrões (Arranja, 2011), daí resultando a morte dos operários conserveiros Maria Torres e António Mendes. Tingia-se assim de vermelho a aurora da República, implantada havia apenas cinco meses.

in FREITAS, Helena de Sousa, A expressão anarquista nas paredes de Setúbal: o cavalo de batalha de Tróia, Disponível em: http://www.cies.iscte.pt/destaques/documents/CIES-WP120_Freitas_001.pdf [consultado em: 26 de Novembro de 2013]