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domingo, 16 de março de 2014

Maurício Abreu


Maurício Abreu nasceu em Coimbra em 1954, estando radicado em Setúbal desde 1964.
Concluiu a licenciatura em engenharia electrotécnica no IST em 1978. A partir de 1983, dedicou-se exclusivamente à fotografia, tendo desenvolvido diversos trabalhos como fotógrafo, produtor e editor, nas áreas do património natural e cultural, da etnografia e da arquitectura tradicional.

domingo, 9 de março de 2014

João Vaz





De todos os pintores até hoje nascidos entre nós João Vaz ocupa, por direito próprio, o primeiro e mais notável lugar. João Vaz, o pintor de Setúbal por excelência, nasceu na nossa cidade em 9 de Março de 1859.

Patenteando desde sempre marcada vocação para a pintura matriculou-se, muito novo ainda na Academia de Belas Artes de Lisboa, onde teve como professor, entre outros, Silva Porto.

sábado, 8 de março de 2014

Num mar de homens uma Oceana

(O Pioneirismo do Ciclismo Feminino)
- Num Mar de homens uma Oceana


Tinha 15 anos e era ciclista. Chamava-se Oceana Zarco e ousou concorrer à Volta a Lisboa em bicicleta. Ousou ganhar.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Américo Ribeiro: biografia

Américo Augusto Ribeiro nasceu a 1 de Janeiro de 1906 na freguesia de Santa Maria da Graça, em Setúbal, cidade pela qual se viria a apaixonar e que fotografaria incansavelmente. Frequentou a Escola Comercial mas cedo deixou os estudos, indo trabalhar como ajudante de carpinteiro para a Câmara Municipal de Setúbal. Contudo, sendo este um trabalho muito duro na época, rapidamente foi substituído por um trabalho menos exigente fisicamente, arranjado pelo seu pai. Começou a trabalhar como caixeiro na Papelaria de Etelvino José Machado na Praça de Bocage (onde se situava o Café da Brasileira, hoje uma loja de pronto-a-vestir), mudando-se, mais tarde, para outro estabelecimento pertencente ao mesmo comerciante e situado no ângulo entre as ruas de Antão Girão e Major Afonso Pala.

Foi nesse espaço que teve os primeiros contactos com a arte de Niépce (1765-1833) e Daguérre (1787-1851), através de Alberto Sartóris, proprietário de uma farmácia e de um estúdio fotográfico, situado na Rua de Antão Girão, onde actualmente funciona um estabelecimento de utilidades domésticas. Corria o ano de 1922 e Américo Ribeiro começava a fazer os seus instantâneos e a expô-los na montra do referido estabelecimento.

De tal modo foi o sucesso do seu trabalho e acolhimento por parte da população, que Américo Ribeiro começou a fotografar apaixonadamente todos os eventos de que Setúbal foi palco, desde monumentos e acontecimentos até outros aspectos por si considerados mais importantes. Com o aumento das encomendas, aumentava também o amor à profissão e nascia o sonho de criar um estúdio seu.

Em 1927 faz a primeira fotografia para o jornal O Setubalense e dois anos depois torna-se correspondente fotográfico do Diário de Notícias e do extinto semanário O Sado. Colaborou ainda com as publicações A Bola, A Indústria, a Ribalta, Correio da Manhã, Diário de Lisboa, Diário Popular, Flama, Mundo Desportivo, Notícias Ilustrado, O Norte Desportivo, O Notícias, O Século, Record e Stadium.

A 8 de Dezembro de 1936 consegue realizar o sonho de criar um estúdio ao abrir (associado com Zózimo Canoa, de quem se separou pouco tempo depois) a Foto Cetóbriga (Antiga Foto dos Espanhóis), no Largo da Conceição, nº 9, que vende em 1984 a João Velez. Paralelamente ao estabelecimento setubalense, cria um homólogo em Sesimbra em 1960 com o nome de Foto Améri (na Rua Cândido dos Reis nº11). Acabaria por vendê-lo em 1979 a Valdemar Capítulo.

Apesar dos dois estabelecimentos de fotografia, a paixão de Américo Ribeiro sempre foi a fotografia de exterior e a reportagem, ao contrário de Manuel Rodrigues Aldegalega (1878-1940) e José Joaquim Cabecinha (1877-1940) que preferiam a fotografia de estúdio. A sua obra é assim o espelho do passado da cidade e das gentes de Setúbal, das ruas e do rio.

Ao longo da sua carreira realizou inúmeras exposições das quais se destacam: “Américo Ribeiro: Um Fotógrafo da Cidade”, realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho em 1981; “Aspectos de Setúbal”, por ocasião da Feira de Sant’Iago em 1982; “Presépios tradicionais”, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal em 1982; “O mar, a terra e as gentes”, em Sesimbra com o patrocínio da Câmara Municipal em 1983; “Américo Ribeiro: Uma Antologia Setubalense”, na Casa de Bocage em 1989; “Américo Ribeiro – Pioneiro do Fotojornalismo”, no Museu do Trabalho em 1966; e na 17ª Exposição de Arte, Ciência e Cultura, organizada pelo Conselho da Europa, estiveram também expostas fotos da sua autoria.

A importância nacional da fotografia de Américo Ribeiro mereceu reconhecimento público como comprovam as inúmeras homenagens e galardões que recebeu: o primeiro e terceiro prémios do certamente organizado pela Comissão de Turismo de Setúbal em 1960; a Medalha de Ouro da Cidade em 1981; a participação, como convidado especial em 1983, no Iº Encontro Nacional de Fotografia realizado em Lisboa; o Diploma de Mérito da Cidade e a respectiva Medalha de Honra na classe Cultura que lhe foi atribuída pela Câmara Municipal de Setúbal em 1985; a distinção com a Medalha de Mérito Distrital no dia de Portugal em 1991; e a Menção Honrosa do Serviço Nacional de Parques e Reservas.
Faleceu a 10 de Julho de 1992, deixando-nos um legado de cerca de 16 mil reportagens assinaladas em livros de registo e 142 500 espécimes fotográficos dos seus mais de sessenta anos de trabalho.~

in LOPES, Madureira, Américo Ribeiro: Todos os Dias. [texto e foto]

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

D. Gonçalo Pinheiro

É das maiores e mais ilustre figuras de eclesiásticos entre os muitos que, vendo a luz da vida em Setúbal, ascenderam a altas dignidades.
Nascido na Rainha do Sado, ao que parece em 1490, visto ter morrido com 77 anos, em 1567, era filho de João Pinheiro e D. Leonor Rodrigues, neto paterno de Afonso Fernandes, secretário da Rainha D. Filipa de Lencastre, e materno de Gonçalo Rodrigues, cavaleiro de D. João II. Pelo casamento de uma irmã com Jorge de Cabedo estava aparentado com os Cabedos de Setúbal, a mais nobre família da nossa terra.
Doutor por Salamanca, licenciado em Cânones pela Universidade de Lisboa, foi Cónego da Sé de Évora, do Conselho Geral da Santa Inquisição, Bispo de Çafim, desde 1537 a 1542, de Tânger até 1552 e depois de Viseu até 1567. 
Diplomata notável exerceu as funções de Embaixador de D. João III junto da Corte de França e, em idêntica qualidade, esteve numa conferência em Baiona, a fim derimir determinada questão entre os soberanos francês e português. Também por nomeação do «Piedoso» desempenhou o cargo de Desembargador do Paço.
Amigos dos homens mais célebres do seu tempo, graças à sua intervenção Camões foi livre da Cadeia do Tronco de Lisboa onde estava por ter agredido o moço de arreios do soberano, Gonçalo Borges, favor que o poeta lhe agradeceu com um soneto. 
Geómetra, astrónomo, hebraísta, e helenista notável devem-se-lhe, ainda as Constituições sinodais do Bispado de Viseu, impressas em 1556.

Soneto de Camões dedicado a D. Gonçalo Pinheiro

Depois que viu Cibele o corpo humano
Do formoso Átis seu, verde Pinheiro,
Em piedade o vão furor primeiro
Convertido, chorou seu grave dano.
E, fazendo a sua dor ilustre engano,
A Júpiter pediu que o verdadeiro
Preço da nobre palma e do loureiro
Ao seu pinheiro desse, soberano.
Mais lhe concede o filho poderoso
Que as estrelas, subindo, tocar possa,
Vendo os segredos lá do céu superno.
Oh, ditoso pinheiro! Oh mais ditoso
Quem se vir coroar da folha vossa,
Cantando à vossa sombra verso eterno! 

in PAXECO, Óscar, Roteiro do Tríptico de Luciano. Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal, 1999.

domingo, 29 de dezembro de 2013

D. Pedro Fernandes Sardinha


D. Pedro Fernandes Sardinha nasceu em Setúbal nos fins do século XV, possivelmente, segundo D. Duarte da Costa em 1496. Foram seus pais Gil Fernandes Sardinha e D. Lourença Fernandes. Diplomou-se em Teologia na Universidade de Partis, pelas alturas de 1528, sendo depois Mestre das Universidades de Salamanca e Coimbra.

Passando à Índia exerceu naquele Estado o importante lugar de Provisor e Vigário Geral, sucedendo a D. Miguel Vaz. No nosso Oriente foi companheiro e amigo de S. Francisco Xavier com que assistiu aos últimos momentos do ínclito e heroico Vice-Rei D. João de Castro.

Foi mesmo graças à amizade de S. Francisco Xavier que o seu nome foi indicado ao Papa, por D. João III, quando o «Piedoso» entendeu fazer ver à Santa Sé os inconvenientes de o Brasil estar eclesiasticamente incorporado na diocese do Funchal, que destarte se tornara uma das maiores da Cristandade. Foi eleito Bispo do Brasil em Fevereiro de 1551 pela bula Super specula que criou a nova diocese de S. Salvador.

D. Pedro Fernandes Sardinha chegou à cidade de S. Salvador da Baía, em 22 de Junho de 1552. Homem de virtude íntegra e grande inteligência, que havia sido na Índia um admirável cooperador da obra da Companhia de Jesus, não entendeu no Brasil a acção ilustre e benemérita dos jesuítas e daí o seu governo ter sido cortado por constantes incidentes com os grandes construtores do Brasil moderno. Todavia a sua obra de moralização e disciplina religiosa da grande nação irmã, ainda hoje ocupa, e justamente, com louvor, algumas páginas da história brasileira.

Chamado à Corte em 1556, por causa das suas discórdias com os padres da Companhia partiu para a Metrópole a bordo da Nau Nossa Senhora da Ajuda que naufragou nos baixios de D. Rodrigo, próximo da foz do Cururipe, a seis léguas do S. Francisco, no dia 16 de Junho de 1556. O infeliz Prelado, bem como os seus companheiros, foi devorado pelos selvagens caetés no arroio de S. Miguel.

in PAXECO, Óscar, Roteiro do Tríptico de Luciano. Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal, 1999.

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Fundadora e a Fundação (do Convento de Jesus)



A fundadora desta casa monástica foi Justa Rodrigues Pereira, uma personagem ímpar no seu tempo que conseguiu pela sua força de vontade construir um convento onde passasse o final da sua vida e aí constituir o seu panteão familiar. A escolha da Ordem religiosa recaiu sobre o ramo feminino dos franciscanos, as clarissas, mais concretamente a ordem terceira observante da reforma coletina8, que preconizava uma vida despojada de riqueza material, vocacionada para a oração e trabalho manual, com uma clausura muito rigorosa (GOMES, 2009: 55), voltando à pureza original da regra primitiva de Santa Clara. A maioria dos conventos femininos em Portugal pertencia à regra clarissa, tendo sido uma instituição muito acolhida pela realeza e nobreza, tendo recebido vários dos seus membros, mas conseguindo manter uma grande transversalidade de estatutos nas mulheres que ingressam nas suas clausuras. Na viragem do século XVI o clima religioso nacional privilegiava movimentos de clausura mendicante, em especial o movimento franciscano, pois este tinha o patrocínio régio (Ibidem).

A data de nascimento de Justa Rodrigues é desconhecida mas deverá situar-se, possivelmente, na década de 20 do século XV. Não sendo de linhagem nobre, os primeiros anos da sua vida e a sua ascendência são-nos desconhecidos, os poucos dados de que dispomos indicam-nos que seria egitaniense9 e que tinha três irmãos – Isabel, Beatriz e Nuno, embora se desconheça a sua filiação. Da sua relação com Bispo da Guarda D. João Manuel nascem os dois filhos, João Manuel e Nuno Manuel, tendo o primeiro nascido em 1640 e o segundo, provavelmente, pouco depois dessa data (SILVA, 1987: 13; GOMES,2009: 61).

O irmão Nuno era criado de D. Fernando, Duque de Viseu (1433-1470) e terá sido a sua influência junto deste que contribuiu para que Justa fosse escolhida para se tornar a ama-de-leite do seu filho mais novo D. Manuel, futuro rei de Portugal, quando este nasceu em 1469 (SILVA, 1987: 13; GOMES,2009:54). A escolha também teve em conta a sua formosura bem como a reputação de mulher piedosa, culta e virtuosa, qualidades procuradas para um emprego desta natureza pois acreditava-se que os traços de personalidade da ama passavam para a criança através do leite (BUESCU,2011: 24). Por não ter um título nobiliárquico, como já foi referido, será o de ama de D. Manuel aquele que usará até ao fim da vida, como forma de se aproximar da alta nobreza e se fazer valer da relação próxima que tinha ao futuro monarca. A ligação estreita entre a ama e a criança é compreensível à luz das práticas medievais e modernas de puericultura em que o bebé acaba por ter mais convivência com a ama e os seus filhos do que com os seus progenitores e irmãos (Idem: 16-26) o que explica o laço afectivo criado entre Justa Rodrigues e os seus filhos e D. Manuel, com efeito, depois de ascender ao trono, este legitima os seus irmãos de leite.

A empresa de erguer um convento está, normalmente, associada a patronos nobres ou de vastas posses pelo que, para uma mulher que não reunia essas duas condições, levar a cabo um projecto dessa natureza era muito ousado e só foi alcançado pela tenacidade e perseverança de Justa Rodrigues. Esta, não só levou a bom porto a construção do convento, como também conseguiu, por bula papal em 1505, autorização para instituir o seu panteão familiar no convento (SILVA; 1987: 14), para si, para os seus dois filhos – na igreja – e a sua mãe, que manda transladar do mosteiro de Abrantes e coloca-a numa campa rasa na sala do capítulo que mais tarde a recebe e onde se lê apenas AQI IAJ A F/VNDADORA/DESTA CAZA. Outro facto digno de nota é o de ter conseguido títulos para os seus descendentes (Ibidem). A ligação da família de Justa Rodrigues ao convento não se esgota na geração seguinte à sua, na verdade ingressaram nele várias mulheres da sua linhagem nos séculos posteriores como sobrinhas, bisnetas e outras (GOMES, 2009: 62).

As razões por trás da vontade da fundadora são, primeiramente, de índole pessoal: a salvação da sua alma, não podemos esquecer que Justa Rodrigues teve dois filhos de um prelado, o que constituía um grave pecado, também na linha dos motivos pessoais a construção de um panteão familiar para perpetuar o nome dos Manueis (SILVA; 1987: 13-14). Outras razões, cuja Oimportância poderá ser secundária mas sem dúvida que estiveram presentes na mente da fundadora, foram uma lógica linhagistica no seio das esferas cortesãs – o que beneficiaria as gerações futuras – e mesmo uma promoção social de Justa, o que acabaria por se reflectir no futuro da sua descendência (GOMES, 2009: 54).

O sítio escolhido para a implantação do convento, junto ao bairro do Troino, deve-se à doação de um terreno, feita em testamento pelo infante D. Fernando a Justa Rodrigues, terreno esse situado fora das muralhas mas próxima de uma porta de acesso ao interior do perímetro urbano (SILVA,1990: 55), numa zona chamada de Fonte Santa (BRAGA, 1998: 385). No entanto este pedaço de terra era insuficiente para a construção pelo que foi necessário comprar mais terreno anexo que era propriedade da Confraria da Anunciada10 e só foi possível adquiri-lo através da acção da rainha D. Leonor (Ibidem; SILVA,1987: 15). Outras doações foram feitas por particulares em terras e dinheiro que permitiram levar a bom porto a empresa mas, sem sombra de dúvida, que o grosso das despesas foi suportado pela coroa através das doações feitas por D. João II (r.1481-1495), e, depois dele, D. Manuel I. O mecenato deste último monarca foi significativo pois começou quando era ainda Duque de Beja e continuou depois da sua ascensão ao trono (SILVA, 1987: 16-18). Uma doação de peso foi a realizada pelo mestre da Ordem de Santiago D. Jorge, bastardo do rei D. João II doando o terreiro em frente ao convento e aí instalando um pelourinho em 1525 (SILVA,1990: 57; PEREIRA,1989: 24) de modo a que esse espaço ficasse vazio de habitações de modo a que nobilitasse o próprio convento, assim se encontrando até aos dias de hoje.

Quanto à alegada insalubridade do terreno, os problemas desta natureza só aparecem na documentação no século XVIII e XIX, sendo que em 1867 se dá ordem para que nenhuma religiosa ou outra qualquer pessoa não fosse enterrada no espaço monástico mas sim num cemitério comum (CARVALHO, 1969: 198). Nos meados do
século XV o terreno foi arroteado e enxuto, passando a ser cultivado. Aí foi instalado o Hospital da Misericórdia (Idem: 70), factores que não se coadunam com insalubridade. Para além disso diversos nobres que detinham terras perto do convento viram negados os seus pedidos para construir casas e quintas. (GOMES, 2009: 58). A própria Justa Rodrigues não iria construir um convento onde se iria recolher, se o terreno fosse insalubre (Idem, 71), tal como não conseguiria as doações necessárias para a sua construção. Tanto as crónicas como as listagens dos óbitos registados no convento dão-nos uma perspectiva de boas condições de saúde e de vida relativamente longa, e que, a título de exemplo, entre 1740 e 1878 apenas morreram 78 religiosas e que, da peste de 1833 apenas 2 freiras perderam a vida desse mal (CARVALHO, 1969. 120-123). O abastecimento de água ao convento era feito por meio de um ramal do aqueduto do Bonfim, pré-existente ao convento, que D. Manuel mandou construir para o abastecimento da casa monástica, saindo numa fonte do claustro (BRAGA, 1998: 415) e sabemos que existia um «cano real de águas grossas», um sistema de esgotos que partiam do convento para o mar e sofre reparações por volta da década de 30 do século XVII (CARVALHO, 1969: 111), pelo que por essa data as questões da salubridade não se deveriam pôr.

É impossível datar quando surgiu no espírito de Justa Rodrigues a ambição de construir um convento. Possivelmente seria uma aspiração pessoal que encontrou a primeira materialidade em 1470 com o terreno doado em testamento por D. Fernando. O facto é que a 15 de Junho de 1489 é emitida uma bula do papa Inocêncio VIII (r.1484-1492) permitindo a construção da casa monástica em Setúbal (SILVA, 1987: 57). A cerimónia do lançamento da primeira pedra deu-se em Agosto do ano seguinte (SILVA, 1987: 18) depois da compra do terreno à Confraria da Anunciada. Até ao ano seguinte apenas foi construído a portaria, adro e dormitórios. Oficialmente, Justa queria que o rei estivesse presente no início das obras da igreja (Ibidem) mas provavelmente a razão seria a falta de verbas para continuar a campanha de obras. Em 1491, aproveitando a presença do rei em Setúbal, Justa convida-o a assistir à liturgia no local onde se iria erguer a igreja do convento, e da qual já estavam abertos os alicerces (Ibidem). Terá sido neste enquadramento que o rei aceitou patrocinar o projecto, impondo o lançamento de novos alicerces para que a igreja e outros espaços fossem maiores e mais monumentais, de modo a poder acomodar trinta e três freiras em vez das treze inicialmente previstas. Neste seguimento dá-se uma nova cerimónia de lançamento da primeira pedra a 22 de Agosto, desta vez com a presença da família real e presidida pelo Bispo de Tânger, D. Diogo Hortiz de Calçadilha (Ibidem).

Aquando da morte de D. João II, o patrocínio régio manteve-se na pessoa de D. Manuel I que, como já foi referido, tinha uma forte relação pessoal com a fundadora.
Significativamente, doou os dois sinos da igreja que ostentam o seu nome, data e títulos régios (BORBA, 1976: 479). Efectivamente patrocínio daquele rei teve início quando ainda era Duque de Beja ao recolher fundos na ilha da Madeira (SILVA, 1990: 57). O mecenato real fez alterar novamente os planos da construção, ampliando-os. Mandou que a igreja tivesse três naves em vez de apenas uma e que a cobertura fosse em pedra e não em madeira, chamando o seu arquitecto, mestre Boitaca (Ibidem). Sem dúvida que o recém-coroado rei queria deixar um marco no início do seu reinado, ampliando uma obra iniciada pelo seu antecessor. Não podemos esquecer o facto de que este rei, não sendo descendente directo do anterior, mas sobrinho/cunhado, tinha a necessidade de afirmação do seu poder de modo a silenciar todas as vozes discordantes da sua legitimidade, incluindo aqueles que preferiam no trono o bastardo D. Jorge que, na condição de mestre de Santiago, era o senhor de Setúbal.

Os trabalhos continuaram a bom ritmo, de forma a que em 1496 estariam já reunidas as condições para a entrada na clausura das primeiras sete religiosa, jovens vindas de um convento em Gândia, Espanha (SILVA, 1987: 19 e GOMES. 2009: 55). Sabemos que no ano de 1500 as obras ainda não estavam completamente concluídas pois ainda se trabalhava nas “oficinas” e no claustro (Ibidem) e que o abobadamento se deve ter dado em 1508 (PEREIRA, 1995: 48), sendo que essa data marca o fim da primeira campanha de obras de mestre Boitaca. 



in BRITO, Mariana Almeida, Convento de Jesus (Setúbal) Arqueologia e História: Faiança decorada.
Disponível em: http://run.unl.pt/handle/10362/9280 [Consultado em 21 de Dezembro de 2013]

sábado, 7 de dezembro de 2013

Padre Joaquim Silvestre Serrão



O Padre Joaquim Silvestre Serrão se não foi o maior compositor de música sacra do passado século, foi, sem sombra de dúvida dos maiores. A sua obra notável, que se guarda em original na fidalga e hospitaleira ilha de S. Miguel e principalmente na sua capital, a típica e acolhedora cidade de Ponta Delgada, que o recebeu e glorificou é um autêntico monumento de arte sacra. Sofrendo embora dos efeitos e defeitos da sua época, a obra de Serrão é o primeiro lampejo forte de reacção contra o gosto teatral que invadira os coros dos nossos templos e deles se apoderar. 

Natural de Setúbal, nasceu nesta cidade em 16 de Agosto de 1801, filho do médico-cirurgião António Leocádio Serrão e de sua mulher, D. Ana Luísa da Conceição 

Depois de ter aprendido na sua terra natal, então um meio opulento onde se cultivava a melhor música, os rudimentos da divina Arte, sentindo-se inclinado para a vida religiosa, e também porque desde sempre tivera em vista reformar a música sacra, ingressou na Ordem Militar de Santiago de Espada, que tinha o seu convento-sede no castelo vizinho da vila de Palmela, onde logo ocupou o lugar de Mestre de capela do qual ascendeu a outros benefícios, chegando, depois de ordenado presbítero, a comendador. Extintas as ordens religiosas, o Padre Joaquim Silvestre Serrão teve, como todos os outros, que abandonar o seu convento.

Foi então para Lisboa onde viveu de dar lições particulares nalgumas das mais fidalgas e importantes famílias. Em Rilhafoles, onde permaneceu algum tempo, fez amizade com o Bispo de Angra, D. Frei Estêvão de Jesus, notável espírito de artistas, que foi seu grande admirador, e por isso o convidou para o acompanhar na ida para a sua diocese. Joaquim Silvestre Serrão querendo furtar-se ao ambiente revolucionário que era então o português, acabou por aceitar e abandonou o Continente, recusando mesmo o rendoso e eminente lugar de organista da Sé Patriarcal, então dos mais interessantes para um artista.

Em fins de 1840 o Padre Joaquim Silvestre Serrão, aceite o convite do Bispo dos Açores, partiu para aquele Arquipélago. Como quer que o Prelado se encontrasse em Ponta Delgada, foi para esta cidade que o notável músico setubalense se dirigiu. Aqui, breve conquistou a admiração de todos os micaelenses, que logo passaram a ter por ele e pela sua notável arte a mais devota veneração. D. Frei Estêvão de Jesus nomeou-o então organista da igreja matriz de S. Sebastião, dando-lhe também a capelania do recolhimento de Santa Bárbara. Ao mesmo tempo fazia-se professor de música dos filhos das principais famílias micaelenses. 

Foi então que Serrão compôs a maior e mais valiosa parte da sua obra, que felizmente S. Miguel soube guardar preciosa e ciosamente, essa obra que pôde espantar o grande músico e crítico de arte o Professor Martinho Roeder, redactor da «Gazeta de Milão», depois director do Conservatório de Boston, e que a ela se referiu, na biografia que escreveu, do notável compositor, nos mais elogiosos e expressivos termos.

Vítima de um insulto apoplético, Silvestre Serrão ficou paralítico do lado direito, tendo aprendido a escrever com a mão esquerda para poder continuar a compor música e a emendar alguma da que já tinha escrito. Assim viveu os últimos seis anos da sua vida, valendo-lhe, para se manter, a dedicação do seu discípulo, o micaelense Pe. Jacinto da Ponte, que tomou o seu lugar de organista da Matriz, dando-lhe sempre generosamente, os respectivos honorários.

Durante os 36 anos que viveu nos Açores esteve sempre na ilha de S. Miguel, havendo apenas notícia de ter ido duas vezes à Terceira, onde construiu o órgão da Catedral de Angra do Heroísmo.

O Padre Joaquim Silvestre Serrão morreu a 20 de Fevereiro de 1877, na cidade de Ponta Delgada, em cujo cemitério de S. Joaquim dorme o último sono. Aqui, tem também, um artístico e lindo monumento erguido pela admiração e gratidão dos micaelenses. A vasta obra de música que deixou pertence a duas épocas - a setubalense, a menor e a micaelense, a mais notável.

PAXECO, Óscar, Roteiro do Tríptico de Luciano. Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal, 1999.

sábado, 30 de novembro de 2013

Helena de Sousa Freitas

Helena de Sousa Freitas nasceu em Lisboa, em 1976. Autora dos ensaios “Jornalismo e Literatura: Inimigos ou Amantes?”, “Sigilo Profissional em Risco” e “O DN Jovem entre o Papel e a Net”, tem também poesia, conto e crónica em obras colectivas editadas em Portugal e no estrangeiro (Brasil, Chile, Estados Unidos e Reino Unido). Em 2011, quis contar uma história noutra linguagem e estreou-se atrás das câmaras com a curta-metragem documental “Setúbal, Cidade Verde”, distinguida com o Prémio do Público no IV Festival Curtas Sadinas. Jornalista desde 1996, começou por trabalhar na imprensa local de Setúbal e, em 1998, ingressou na Lusa, de cujos quadros faz parte. Um dossier sobre e-books realizado ao serviço da agência valeu-lhe o Prémio Editorial Sociedade da Informação 2010, promovido pela APDSI. Tem colaborado com o Sítio do Sindicato dos Jornalistas, com a revista JJ, do Clube de Jornalistas, e com o Festroia – Festival Internacional de Cinema de Setúbal, e desenvolvido trabalho como revisora literária. Licenciada em Comunicação Social (ESE-IPS), pós-graduada em Direito da Comunicação Social (FD-UL) e mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE-IUL), é actualmente bolseira de doutoramento no CIES, centro de investigação associado ao ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, onde desenvolve uma tese sobre os murais sociais e políticos enquanto forma de comunicação alternativa aos mass media.

Autora:


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Jaime Rebelo (1900-1975)


Jaime Rebelo (1900-1975) foi um dos libertários portugueses que integrou movimentos anarquistas também em Espanha, nomeadamente orientados pela Federação Anarquista Ibérica e pela Confederação Nacional do Trabalho, união de sindicatos autónomos de ideologia anarco-sindicalista, tendo ainda participado em milícias que combateram o franquismo em Aragão e na Catalhunha. O seu nome baptiza uma avenida junto ao rio em Setúbal.


Submetido a tortura, Jaime Rebelo terá receado ceder e denunciar os companheiros. “Porém, sem saber muito bem a razão, tinha levado para a prisão, entre a planta do pé e a meia, uma lâmina de barbear escondida. Então, entre o receio de falar e de mutilar-se, escolheu a segunda opção. Com a lâmina cortou a língua. Desta forma já não lhe podiam arrancar nenhuma denúncia”. O gesto, violento mesmo para as práticas da polícia política, inspirou Jaime Cortesão à escrita do poema “Romance do Homem da Boca Fechada”, que circulou clandestinamente nos anos 30 e foi publicado no jornal Avante! em Outubro de 1937. (consultar aqui: http://www.ges.pcp.pt/bibliopac/imgs/AVT2056.pdf - online a 27 de Novembro de 2013.)

in FREITAS, Helena de Sousa, A expressão anarquista nas paredes de Setúbal: o cavalo de batalha de Tróia, Disponível em: http://www.cies.iscte.pt/destaques/documents/CIES-WP120_Freitas_001.pdf [consultado em: 25 de Novembro de 2013]


Romance do Homem da Boca Fechada
Jaime Cortesão

- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
- Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.

Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto, 
De noite, luta bravia, 
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia...
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos, 
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra, 
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!

- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar, 
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! - 
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!

Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.

Fotografias:

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Afonso O'Neill


Afonso O’Neill
Agente Comercial
Nasceu a 22 de Novembro de 1872 e faleceu em 8 de Julho de 1967, com a bonita idade de 94 anos.

Era filho de Joaquim Toriades O’Neill e de D. Prudenciana Gomes O’Neill.

Como seu pai era sócio-gerente da firma Toriades & Cª., que negociava por grosso e possuía armazéns de pescado (estiva), com escritórios em Lisboa e em Setúbal, no edifício defronte do Quartel, a sua actividade comercial teve início na sociedade pertencente à família.

Seria interessante registar que Joaquim Toriades O’Neill adquiriu aos liberais, em 1834, o extinto mosteiro dos franciscanos na freguesia d’Anunciada. Seu filho João (irmão de Afonso O’Neill), como herdeiro e administrador, mandou demolir parte do mosteiro, que mais tarde foi reedificado por Francisco José Pereira (irmão de Henrique Pereira) que o comprou por volta de 1870, para depois o vender aos padres lazaristas que ali fundaram um colégio em 1876.

O nosso ilustre conterrâneo pertencia, pois, a uma família muito numerosa, com profundas raízes na nossa cidade e cujas origens datam de há mais de três séculos.

Casou com D. Paulina Pereira Aguiam pertencente a uma conceituada família setubalense, não tendo havido filhos.


Em 1894, contando 22 anos, fundou o seu escritório de agente e de representações comerciais na Avenida Luísa Todi. Dados os seus conhecimentos e apresentação impecável de pessoa culta e educada, depressa desenvolveu as suas actividades, sendo nomeado Agente de Navegação e correspondente dos Bancos Espírito Santo e Totta, tendo exercido durante muitos anos o honroso cargo de Vice-Cônsul de Espanha e França. Foi depositário da Companhia Previdente.

Como reconhecimento pela sua acção, o Governo espanhol, por decreto de 15/10/1957, concedeu-lhe a Comenda de Ordem de Mérito Civil.

Antes, ou seja, em 16/6/1955 para poder descansar e premiar, de certo modo, os dedicados colaboradores e nossos queridos amigos Edmundo Resende e Manuel Vidigal Biscaia Alves de saudosa memória, constituiu a sociedade comercial Afonso H. O’Neill / C.ª Ldª, hoje bem dirigida pelo sócio e herdeiro José Luís da Costa Resende e com escritórios na Rua Ocidental do Mercado, 57, 1º Esq. e cuja actividade principal é Agentes de Navegação.

Era, na verdade, uma figura invulgar, cujo porte varonil e cheio de vida impunha respeito e admiração. Possuía uma jovialidade contagiante, sendo, por isso, excelente conversador, em que mostrava sem afectação a sua esmerada educação e cultura.

Nós, desde tenra idade, por força dos nossos deveres profissionais, habituámo-nos a vê-lo e admirá-lo, durante mais de 30 anos, nas visitas frequentes ao seu escritório.

Mais tarde o nosso convívio serviu para alicerçar as nossas convicções monárquicas, ideal político vivido, mantido e defendido desde sempre, como prova do nosso indefectível patriotismo.

Afonso O’Neill dedicou-se desde muito jovem às provas náuticas e tão dedicado era que se tornou impulsionador da fundação, em 1920, do Clube Naval Setubalense, cabendo-lhe o nº 1 de sócio. Os seus dedicados colaboradores em tão feliz iniciativa foram os ilustres amigos e conterrâneos Virgílio Santana, Cap. José de Almeida Cassar e Dr. Joaquim Ferreira de Sousa Jor.

Podemos dizer que a sua longa vida foi um exemplo de trabalho, de boas iniciativas com base na seriedade e na educação, impondo-se ao respeito dos que o conheciam. Sabemos que teve uma existência cheia de episódios curiosos em que vincou com toda a evidência a sua personalidade ímpar.

Quem duvidará que o seu nome mereça ser afixado numa artéria da sua e nossa querida terra?...

in Vultos Setubalenses, p. 15-17

quarta-feira, 13 de julho de 2011

José Maria de Moura Barata Feio Terenas

José Maria de Moura Barata Feio Terenas
DEPUTADO PELO CÍRCULO Nº 39, SETÚBAL


JORNALISTA E DIRECTOR GERAL DA SECRETARIA DA ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE, 61 annos de idade. Nasceu na Covilhã a 5 de Novembro de 1850. É um dos republicanos históricos mais em evidencia e um dos mais antigos senão o mais antigos, de quantos teem logar no primeiro parlamento republicano. N’um jornal de Coimbra, com Bernardino Pinheiro e outros fez os seus primeiros trabalhos de lucta democrática. Foi redactor do Debate e da Democracia, de que era proprietário e director José Elias Garcia, o primeiro deputado republicano que teve logar no parlamento e que combateu ministérios monarchicos presididos por Fontes Pereira de Melo, Anselmo José Braancamp e outros. Dirigiu também a Batalha que mais tarde passou a ter por titulo A Revolução de Janeiro.
Depois de proclamada a Republica dirigiu um novo jornal também com o titulo Democracia e actualmente é director da Vanguarda. Foi em 1881, sendo Elias Garcia vereador do pelouro da instrucção da Camara Municipal de Lisboa, nomeado Bibliothecario Geral das Bibliothecas Municipaes, logar que deixou de exercer ao ser escolhido para director geral da Secretaria da Assembleia Nacional Constituinte, cargo em que o Governo Provisorio da Republica o investiu como recompensa de dedicados e muito antigos serviços ao partido. D’uma biografia de Feio Terenas, publicada no Album Republicano, de Gomes de Carvalho, destacamos os seguintes períodos: «Republicano da velha guarda, foi dos mais íntimos e dedicados amigos de Elias Garcia. Como o mestre querido, nunca conheceu o desalento. Quer nas épocas de gloria, quer nos dias de privação que o partido tem atravessado, foi sempre o mesmo combatente enthusiasta da fé inabalável no triunfo da causa. Tendo entrado cedo no partido republicano, onde ocupa um logar de honra, são para notar em especial o seu trabalho e a sua actividade na organização interna do partido republicano, que lhe deve os mais relevantes serviços. Egualmente a instrucção popular lhe tem merecido grandes desvelos, como o atestam o Vintem das Escolas e outras obras de philantrophia social».
Ainda na vigência do regímen monarchico foi eleito deputado pelo partido republicano, pelo circulo de Setubal, que agora novamente representa na Assembleia Nacional Constituinte.

in LEMOS, Eduardo Rodrigues Cardoso de, As constituintes de 1911 e os seus deputados / obra compilada e dirigida por um antigo official da Secretaria do Parlamento . - Lisboa : Livr. Ferreira, 1911

terça-feira, 12 de julho de 2011

Joaquim Brandão

Joaquim Brandão
DEPUTADO PELO CÍRCULO Nº 39, SETÚBAL

INSPECTOR DA FISCALISAÇÃO DAS SOCIEDADES ANONYMAS, 35 annos d’idade. Nasceu em Cezimbra a 8 de Outubro de 1876. Filho de José Maria Brandão e de D. Maria d’Arrabida Preto Brandão. Tomou parte em todos os trabalhos de organização partidária realisados em Setubal desde 1899. Foi secretário da Commissão Municipal Republicana d’aquella cidade e um dos fundadores do Centro republicano de Setubal, de cuja assembléa geral é presidente desde a fundação. No dia 5 de Outubro foi proclamado vogal da comissão administrativa do município de Setubal, de que é hoje presidente. Tambem presidiu à comissão organizadora do Congresso Republicano de Setubal em 1909. Representou o partido em vários congressos.
Joaquim Brandão foi fundador e redactor do jornal A Folha, de Setubal, em 1899, e fundador e director do jornal O Sul que iniciou a sua publicação em 1901. Collaborou em vários jornais do partido.

Muito activo e trabalhador, começou a sua vida por empregado de escriptorio, entrando para uma casa bancaria de Setubal em 1891.
Foi depois guarda-livros de duas casas commerciaes d’aquella cidade, e desde 1907 exercia o logar de solicitador na comarca. Como empregado de commercio foi fundador e presidente da respectiva associação de classe, de Setubal, de que é hoje sócio honorário.

in LEMOS, Eduardo Rodrigues Cardoso de, As constituintes de 1911 e os seus deputados / obra compilada e dirigida por um antigo official da Secretaria do Parlamento . - Lisboa : Livr. Ferreira, 1911

terça-feira, 5 de julho de 2011

Jorge de Vasconcellos Nunes

Jorge de Vasconcellos Nunes
DEPUTADO PELO CÍRCULO Nº 39, SETÚBAL

AGRICULTOR E PROPRIETARIO - 33 annos d'idade. Natural de Grandola. FIlho do Dr. José Jacintho Nunes, tambem deputado á Assembleia Nacional Constituinte, e de D. Maria da Natividade Paes de Vasconcellos Nunes. Tem o curso de agricultor pela Escola Nacional d'Agricultura de Coimbra que concluiu em 1900. Tem collaborado nos jornaes: Paiz, Lanterna, Mundo, Lucta, Democracia do Sul e Pedro Nunes. Em muitas terras do paiz tem realisado conferencias e comicios sempre de caracter republicano.






in LEMOS, Eduardo Rodrigues Cardoso de, As constituintes de 1911 e os seus deputados / obra compilada e dirigida por um antigo official da Secretaria do Parlamento . - Lisboa : Livr. Ferreira, 1911

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Francisco de Salles Ramos da Costa

Iniciamos hoje um conjunto de quatro biografias dos deputados da 1ª República eleitos pelo Círculo de Setúbal.

Francisco de Salles Ramos da Costa
DEPUTADO PELO CIRCULO Nº 39, SETUBAL

CORONEL D’ARTILHARIA. 56 annos d’edade. Natural de Lisboa. Fez o curso preparatório para a arma de artilharia na Escola Polytechnica e o curso da mesma arma que concluiu em 1878 na Escola do Exercito. Tem escripto diversos artigos no Diario de Noticias, Seculo e Revista de Artilharia, de que já foi director.
Tem desempenhado varias comissões officiaes de serviço extraordinário e entre ellas foi incumbido de presidir a uma comissão para continuar o fabrico de material de guerra em Braço de Prta, e escolher os mecanismos necessários para o fabrico de todas as munições de artilharia que actualmente ali se manufacturam. Foi depois encarregado de receber na Allemanha as referidas machinas e de dirigir a sua montagem d’installação. Concluida esta e sendo então director da extincta fundição de canhões, foi nomeado director da fabrica de Braço de Prata, logar que actualmente desempenha.

N’esta fabrica organizou uma cooperatica e uma cantina para uso dos seus operários. Foi nomeado presidente d’uma comissão para a escolha d’uma instalação para o fabrico nacional de espingardas, sendo depois e por tal motivo elogiado em ordem do Arsenal do Exercito pelo respectivo inspector. Fez parte da grande comissão que elabourou a ultima organização do exercito e que preprara a Nação armada, suprema inspiração dos estados de menor extensão territorial.
Assentamento de praça em outubro de 1871, promovido a 2º tenente em dezembro de 1877, a 1º tenente em janeiro de 1880, a capitão em outubro de 1884, a major em outubro de 1900, a tenente coronel em junho de 1905 e a coronel em janeiro de 1909.
E’ condecorado com a medalha militar de prata de comportamento exemplar e com a Cruz Vermelha e é commendador de Aviz.
Em 1909 foi à sua custa representar o Ministério da Guerra no Congresso que se realizou em Copenhague, organizado pela Sociedade Internacional d’ensaios de material de construção, elaborado um relatório que foi publicado na Revista d’Artilharia.

in LEMOS, Eduardo Rodrigues Cardoso de, As constituintes de 1911 e os seus deputados / obra compilada e dirigida por um antigo official da Secretaria do Parlamento . - Lisboa : Livr. Ferreira, 1911

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Afonso Augusto Galvão


- Sacerdote –
Nasceu em Setúbal a 4 de Outubro de 1883 e faleceu a 31 de Dezembro de 1958, com 75 anos de idade.
Era filho de António Francisco Galvão (modesto pescador) e de D. Maria do Rosário.
Paroquiou a freguesia de N.ª Sª da Anunciada durante 30 anos, tendo celebrado a sua 1ª. Missa no dia 1 de Janeiro de 1904 na Igreja de S. Sebastião, em cuja freguesia nasceu.
Foi comissário da Ordem Terceira do Carmo, nesta cidade.
Toda a sua vida foi um verdadeiro sofrimento. Era muito esmoler e caritativo, além de francamente amável e popular, pelo que sofria com os que sofriam. Chegou ao ponto de pagar mensalmente 5 rendas de casa de famílias pobres.
Na alutra que era prior em Marateca, fazia a viagem de madrugada, em bicicleta. Foi assaltado 2 vezes e roubaram-lhe o relógio e tudo o que levava.
Quando da revolução de 1910 todos os sacerdotes foram obrigados a fugir. Só ele quis ficar junto dos seus paroquianos, o que resultou num grande esforço, quer pelas visitas aos moribundos, quer nos funerais, feitos sempre a pé. E assim, anos passados, tinha as pernas cheias de chagas, provocadas pelas varizes crónicas. Mas apesar do seu sofrimento, tinha sempre um sorriso e uma anedota engraçada para distrair os que o rodeavam.
Na última fase da sua doença (que durou 10 anos) recebeu a visita do Senhor Cardeal Patriarca, D. Gonçalves Cerejeira, e do Senhor Padre Cruz.
Foi na verdade um digno sacerdote, que pelos seus actos granjeou gerais simpatias de toda a cidade e em particular dos seus queridos paroquianos da Anunciada.

in Vultos Setubalenses, p. 13-14

terça-feira, 24 de maio de 2011

José Afonso



AFONSO, José. Cantor (Aveiro 2.8.1929-Setúbal 23.2.1987). Formou-se em Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra, tendo exercido o magistrado liceal. A partir de 1969 dedicou-se em exclusivo à actividade musical. O seu nome impôs-se com Baladas e Canções, 1964. A Casa da Imprensa galardoou-o em 1969, 1970 e 1971 como o melhor compositor e intérprete de música ligeira. A sua canção Grândola, Vila Morena, utilizada como sinal para o arranque da revolução de 25.4.1974, tornou-se uma espécie de hino do Movimento das Forças Armadas.

in O Grande Livro dos Portugueses

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ana de Castro Osório



Nascida em 1872 em Mangualde, faleceu em Lisboa em 1935. Viveu em Setúbal onde começou a carreira de escritora.

Seus pais eram de origem beirã. Aos 23 anos veio residir para Setúbal onde casou com o Poeta e publicista setubalense Paulino de Oliveira.


Os seus primeiros interesses orientaram-se para a literatura infantil tendo iniciado uma série de publicações sob o título "Para as crianças" de conteúdo moralizador e educativo.

A par do seu pendor pedagógico, confirmado pela multiplicidade de publicações para crianças, interessou-se sempre por questões de ordem social, cultural e política e muito especialmente pela problemática feminina.

Foi uma mulher que teve uma participação preponderante na divulgação dos ideais feministas e de promoção cultural da mulher na época. Assume-se como feminista e como defensora veemente do seu sexo em toda a sua obra, de que resumidamente citamos: "As operárias das fábricas de Setúbal e a greve" onde dizia:

A questão feminina é a questão da mulher que tem sido na sociedade a eterna escrava, a perpétua ludibriada.

Foi directora do Grupo Português de Estudos Feministas fundado em 1907.

Dentro dos ideais republicanos que perfilhou tem um papel notável como defensora do novo regime e como promotora de alterações e reformas sociais.


Co-fundadora da primeira organização que se propões defender o estatuto das mulheres dentro dos ideais da República - a "Liga Republicana das Mulheres Portuguesas", criada em 1909. Mais tarde, por divergências relacionadas com a própria situação política, Ana de Castro Osório sai da "Liga" e cria a "Associação de Propaganda Feminista" de que é Presidente. Em 1917 funda a "Cruzada das Mulheres Portuguesas" para apoio aos soldados e suas famílias.


Escreveu em várias revistas e foi Directora de "A Semeadora" e "A Sociedade Futura".

Sempre se empenhou para que se reconhecesse a necessidade de lutar contra o analfabetismo nas mulheres, pela criação de creches e jardins de infância, pela valorização das actividades femininas, sempre desvalorizadas porque, diz ela:

Não há Pais civilizado que despreze hoje o trabalho e a acção inteligente de metade, ou mais, da sua população, só porque a Natureza a categorizou no sexo feminino (...) cabendo pois à mulhe observar-se e comprometer-se a si própria (...) tomar o lugar que lhe é devido na marcha para o futuro mais próspero de Portugal.

Manifestou-se sempre grande empenhamento na alteração da situação jurídica da mulher; nesse sentido exerceu a sua acção de escritora e jornalista tendo sido profissionalmente Sub-Inspectora do Trabalho Feminino.

A sua obra "Às Mulheres Portuguesas", publicado em 1905, é um veemente apelo à participação das próprias mulheres na tomada de consciência do que era a sua situação de menoridade na sociedade.

Há ointenta anos, (1905) Ana de Castro Osório escrevia:

As Mulheres conservam-se entre nós numa indiferença quase total pelas conquistas que, dia-a-dia vão marcando um passo de avanço para o triunfo definitivo do espírito sobre a matéria, da inteligência sobre a força, da educação sobre a ignorância, embora doiradas pela fortuna ou pelos privilégios da classe.

Com a esperança que a caracterizava continuava:

Mas, esperemos serenamente, porque à mulher portuguesa há-de chegar também a sua vez de compreender que só no trabalho pode encontrar a sua carta de alforria. Não no trabalho esmagador, exercido como castigo, mas no trabalho que enobrece o espírito, que dá o belo orgulho dos que só contam consigo e nunca foram um peso para ninguém. E desde que se torne independente pelo seu próprio esforço, desde que saiba agenciar o pão que come, a casa que habita, os vestidos - a alforria está decretada.

E diz mais:

No séc. XX a mulher tem que ser outra, porque outro é também o homem e muito diferente o seu ideal. Educar a mãe para ser a educadora dos filhos; educar a mulher em geral para viver de si mesma, e para si, quando pertence à enorme legião das que ficam solteira, e portanto, sem filhos a educar nem casa a governar, deve ser um dos nossos mais porfiados empenhos. É este o verdadeiro feminismo.

Acrescenta ainda:

Julgaram os homens por acaso - tamanha será a sua ingenuidade?! - que podiam em vão dispor de metade da humanidade, reduzi-la ao papel de farfalho de deusa do lar, nuvem, anjo, demónio e todas quantas mais banalidades se têm dito e escrito à séculos e, dizer-lhe: fica aí! o teu destino é agradar-me ou servir-me, conforme o meu capricho de senhor!?

A bibliografia de Ana de Castro Osório é extensa:

"Infelizes", "Crianças e Mulheres", "Festas Infantis", "A minha Pátria", "Os nossos Amigos", "Uma lição de História", "Lendo e aprendendo", "Viagens Aventurosas de Felício e Felizarda", "O Livrinho Encantador", "Quatro Novelas", "O Direito da Mãe", "A Grande Aliança", "Em Tempo de Guerra", "A Mulher na Agricultura, nas Indústrias Regionais e na Adminiatração Municipalista de Évora", "Ambições", "Dias de Festa", "Mundo Novo", "A Verdadeira Mãe", "A Capela das Rosas", "O Mais Forte", "O Doce Perfume", "Outrora" (livro de evocações), "A Zeladora", "Bem prega Frei Tomás", "A Comédia de Lili", "A Princesa Muda" (conto popular recriado), "A Educação Cívica da Mulher", "A Mulher na Casa e no Divórcio", "As Mulheres Portuguesas", "Contos, Fábulas e Exemplos da Tradição Popular Portuguesa", "As Operárias das Fábricas de Setúbal e a Greve".


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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Adriano de Morais


Adriano de Morais
- Gerente Comercial -

Nascido a 28 de Janeiro de 1890 veio a falecer em 15 de Fevereiro de 1956, com a idade de 66 anos.
Era filho de Manuel Gonçalves de Morais e de D. Maria do Rosário Pereira Morais.
Seu pai tornou-se conhecido pelo Manuel das Borras, por se ter dedicado à compra e venda de borras de azeite, tendo como colaborador e sócio o bondoso amigo Joaquim Venâncio.



Aos 17 anos foi admitido numa fábrica de conservas francesa, mas embora muito dedicado às pessoas, possuía um carácter deveras independente e uma forte personalidade e assim, com 25 anos, foi trabalhar para a firma Bonifácio Lázaro já na condição de sócio. Mas em 1926 seu pai funda a firma Moraes & Filhos na Estrada da Graça, onde passou a dar inteira colaboração e a demonstrar as suas excepcionais qualidades de homem e de gerente comercial. A fábrica de conservas durou poucos anos e em 1930 já era o representante da Citroen em Setúbal com um stand na Avenida Luísa Todi e delegado do Automóvel Clube de Portugal. Para nós, foi no ramo automobilista que Adriano Morais mais se evidenciou, pois com a sua alegre vivência e bom trato conseguiu ser considerado um dos mais distintos e antigos automobilistas de Setúbal, daí resultando que a colónia francesa existente na nossa cidade o nomeou agente e conselheiro permanente. Por consequência, os dirigentes belgas da Sapec também passaram a ter com ele relações afectivas. Era, na verdadeira acepção da palavra, um cavalheiro, um amigo dedicado, sempre disponível para ajudar a resolver qualquer problema. Em toda a sua vida deu mais do que recebeu. Foi um autêntico mãos largas. – Recusou benesses e honrarias e bem assim lugares efectivos, pois prezava muito a sua independência e liberdade. Por isso recusou o convite para fazer parte dos quadros superiores da Sapec e o lugar de Presidente da Câmara, limitando-se a vereador.
Muito dedicado ao desporto, pertenceu à Associação de Futebol e, como cormerciante, foi dirigente da Associação Industrial e Comercial de Setúbal.
Dominava facilmente a língua francesa, tendo viajado muito pela Europa a tratar de negócios seus e, algumas vezes, em representação de outras firmas.

Pela sua bondade natural, educação esmerada, disponibilidade permanente, inteligência aguda e actuante, jovialmente saudável, dotes de carácter e de honestidade, ser-nos-á díficil esquecer o grande Amigo Adriano de Morais.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ana de Broughton Gamito

Os terrenos e as instalações primitivas da Casa de Sant'Ana, onde funciona actualmente um infantário e um colégio com internamento para raparigas, foi doado por esta senhora a uma Congregação Religiosa.

in Mulheres que deram Nomes a Ruas de Setúbal,





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